13 de ago de 2009

trecho da peça Cárcere

No dia em que Dente questionou se eu tinha coragem de matar, eu falei que não era legal ficar pensando em matar, era melhor pensar em ficar vivo, viver... Mas daí ele argumentou que se eu começasse a matar meus inimigos, eu poderia fazer meu grupo de apoio aqui dentro, pois aqueles caras também tinham inimigos. Eu considerei as coisas. Depois desabafei, disse que pensar em morrer naquele lugar chegava a dar uma sensação de alívio de vez em quando... eu me sinto um pouco morto aqui. Eles fazem de tudo pra gente se sentir meio morto aqui. Eles racionam minha água, para que eu não possa tomar banho, escovar os dentes, pra eu viver como um animal... eles fazem isso. Eles cortam a minha luz pra eu me sentir um bicho no escuro, enjaulado. Eles cuidam para que eu me torne um número, um nada. Eles sacaneiam minha comida, botam bicho nela, pra que eu me sinta um bicho comendo comida com bicho... melhor o bicho, tem vez que tem gilete... quem sai daqui vivo sai bicho. É outra noite. Ela vai embora e mais uma vez eu não dormi. É madrugada e eu queria tocar meu piano. Queria cantar meu canto... mesmo baixinho, se eu cantar alto eu me ferro amanhã. Eu já tou jurado de morte, se eu acordar os bicho, aí que eu me ferro mesmo. Falando em cantar, eu já sei o que vou cantar quando sair daqui... sabe aquela música?... aquela?... do... do... aquela?... Como é mesmo o começo?... Peraí... não... não lembro. Só me resta recordar as melodias de Monk... ah, falando em Monk eu lembro de uma coisa legal do Dente ter ido embora. Ele não gostava de Monk. Eu dizia pra ele que era o som da liberdade, de um povo lutando contra a opressão... Certa vez ele virou pra mim e falou: Ô Ovo, que foi? Cozinhô a gema? Tá muito calor aqui, acho mesmo é que queimô a gema’ Eu fiquei puto, na lata respondi: Cê quer saber, cara? Monk é meu herói! Ele foi direto: É... Mas quem espera por herói vai se fuder sentado’ Dente tinha razão. Aqui dentro não tinha como esperar por herói. Eu tinha que ser meu próprio herói. Um herói equilibrista, caminhando no delicado fio de expectativa, vida. Sair daqui ileso. Vivo... Vivo... Assim amanhece o dia, mais uma vez contemplo a cara dos outros presos e eles parecem saber que a rebelião é certa e que estou no cu da cobra pagando penitência.


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A peça Cárcere acaba de ser contemplada com o prêmio de circulação de espetáculo teatrais do governo capixaba. Ainda este ano faremos a peça am seis cidades do Espírito Santo.

7 comentários:

Vinícius Piedade disse...

VIVA SAULO RIBEIO!!!

Gabriela Galvão disse...

Eu ainda ñ vi a peça, mas agora, qro mais.

E sabe q escolha d nome d personagem, pra mim, eh um mistério. Nunca dou.
Eh claro q o Dente me instigou. Ainda mais q ‘É... Mas quem espera por herói vai se fuder sentado’ sairia facilmente da boca do meu Gatão.

: ) Bisous

Serafa disse...

Boa notícia! Parabéns!

a disse...

Eu fico boba! E adoro!

Paulo Bono disse...

você é foda.
queria assistir a essa peça.

abraço

Thiara Pagani disse...

Parabéns!
Para ambos,e o público sai ganhando.

Sucesso!

Natali disse...

Ainda lamentando não ter assistido à peça...